No Mundo das Vírgulas (Nilson Souza)

Tive outro dia uma conversa com acadêmicos de Comunicação da PUC e notei certa ansiedade da garotada em relação a uma rotina da vida jornalística, que é a obrigatoriedade de escrever sob a pressão do horário e nos limites do espaço disponível. Tentei tranquilizá-los: sempre é possível e, com a prática, todo o mundo consegue, não é preciso ter nenhum dom especial. Difícil mesmo é escrever bem. Para isso, não basta ter tempo, espaço ou vontade; é necessário, acima de tudo, persistência. Nunca tive a pretensão de orientar ninguém sobre esta matéria, até mesmo porque também suo diariamente para dar uma forma apresentável a meus textos – e nem sempre consigo. Mas recolhi das leituras da madrugada (leiam, leiam, leiam, mas também procurem escrever e submeter o texto à apreciação de leitores qualificados!) alguns ensinamentos que agora retransmito, na esperança de que sejam úteis a quem se interessa pelo tema.

O primeiro deles é de Isaac Bashevis Singer, para quem o melhor amigo do escritor é a lata de lixo. Pode parecer um tanto desestimulante, mas é um admirável conselho. Lembra que a boa redação – aliás, como tudo na vida – só pode ser alcançada com humildade, com o reconhecimento da má obra. Fazer, cortar e refazer repetidamente: este é o ciclo. Trabalhoso, mas necessário. O que é escrito sem esforço, disse Samuel Johnson, geralmente é lido sem prazer.

O escritor tem que se preocupar com os mínimos detalhes de sua obra, e especialmente com estes. Tom Campbell andou certa vez dez quilômetros até a gráfica que imprimia um dos seus livros (e dez quilômetros de volta) para mudar uma vírgula num ponto e vírgula. E é exatamente nas vírgulas que tropeçam os redatores iniciantes, separando o que não deve ser separado e unindo o que não pode estar junto. A pontuação é o cimento do texto. Querem um exemplo? Leiam a historinha abaixo, que retirei de uma coletânea de pensamentos de Mansour Challita:

Foi encontrado o seguinte testamento: “Deixo os meus bens à minha irmã não a meu sobrinho jamais será paga a conta do alfaiate nada aos pobres”. Quem tinha direito ao espólio? Eram quatro os concorrentes. O sobrinho assim pontuou o texto: “deixo os meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho. Jamais será paga a conta do alfaiate. Nada aos pobres”. A irmã pontuou assim: “deixo os bens à minha irmã. Não ao meu sobrinho. Jamais será paga a conta do alfaiate. Nada aos pobres.” O alfaiate fez a sua versão. “Deixo os bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho? Jamais! Será paga a conta do alfaiate. Nada aos pobres”. O procurador dos pobres pontuou assim: ‘Deixo os meus bens à minha irmã? Não! Ao meu sobrinho? Jamais! Será paga a conta do alfaiate? Nada! Aos pobres!”.

O anônimo moribundo, como podem perceber os leitores, não era um bom redator. Ou então tinha – por motivos óbvios – a pressa dos jornalistas nos minutos que precedem ao fechamento da edição.

(*) Crônica de Nilson Souza publicada no jornal Zero Hora em 1º/9/1994.

O Homem e a Evolução (Ivo Lima)

Às vezes, fico me perguntando o que está acontecendo com o ser humano, principalmente numa época em que a humanidade galgou importantes conquistas científicas em várias áreas do conhecimento. Se tomarmos o setor da comunicação, por exemplo, entre outros inventos fantásticos, podemos citar o celular. No início, havia aqueles aparelhos que pareciam um trabuco na cintura, tão pesados que deixavam o usuário até andando de lado. Com o passar do tempo, a evolução científica encarregou-se de modificar os modelos de aparelho celular: há uma variedade de tamanhos, bem menores, mais bonitos e com muitas opções. Mas como o ser humano anda utilizando esse aparelho no seu dia a dia? Em sala de aula, por exemplo, ouvindo música no lugar errado, na hora errada, sendo petulante, quando o educador e mesmo os colegas lhe chamam a atenção. Isso atrapalha demais o andamento das aulas, comprometendo as explicações, as discussões, a realização das atividades e, consequentemente, o aprendizado.
No coletivo – ônibus – com ele ligado alto e, muitas vezes, em músicas que desfilam um repertório de palavrões que deixam os usuários horrorizados com tamanha falta de respeito e de desconfiômetro. Se os passageiros, o cobrador ou mesmo o motorista, pedirem para o cidadão ler o aviso fixado no ônibus “Proibido o uso de aparelhos eletrônicos”, é tratado com ignorância e, quando não, com agressões verbais ou físicas. Diante dessa situação e de muitas outras, fica aqui uma sugestão para as operadoras de aparelhos celulares: quando venderem um aparelho ao cliente, ofereçam junto um manual de “Etiqueta do celular”. Quem sabe, assim, muitas pessoas possam tomar conhecimento da importância de usar o aparelho adequadamente e, principalmente, levem em conta o outro que está ao seu lado, aliando tecnologia e respeito para com seus semelhantes.
Recentemente, uma repórter de um canal de televisão de abrangência nacional perguntou a um adolescente: “O que você acha de ficar com o celular ligado alto em locais inadequados?” Veja o que ele respondeu: “Antes que as pessoas me incomodem, eu incomodo elas”. Isso mostra como muitas pessoas estão pensando e agindo no espaço coletivo, ou seja, os outros não contam, porque, em primeiro lugar, está satisfazer caprichos, mesmo caindo no ridículo.
Se, por um lado, podemos nos beneficiar dos avanços da ciência, por outro lado, o despreparo no manuseio delas e a falta de consciência das pessoas acabam causando muitos transtornos à sociedade, pois o que está prevalecendo com essas atitudes infelizes é a falta de educação, de respeito ao próximo, numa demonstração de falta de bom senso que causa indignação. E o resultado disso, entre outras consequências, é a violência.
Mas o que fazer para alterar esse quadro, além de sugerir a organização por parte das operadoras, de um manual de “Etiqueta do celular”? Que as pessoas passem a perceber que não podem se comportar como se estivessem numa ilha, isoladas, que saibam que pequenas ações ou grandes refletem para o bem ou para o mal delas e dos outros.
Além disso, seria muito importante que levassem a sério a regra de ouro, que diz: “Não faça, aos outros aquilo que não quer façam a você”. Praticar isso não é algo simples. Mas não custa nada procurar fazer a sua parte, para que tenhamos uma sociedade melhor, a partir de bases fundamentais, como: educação, respeito, ética, justiça social, cuidado com o meio ambiente, cultivo da dimensão espiritual, entre outros requisitos. É mais fácil só reclamar e dizer que o mundo está perdido, que não há mais solução.

Ivo Lima é professor de Filosofia e Escritor – Sócio Efetivo do Clube dos Escritores, tem publicado o livro “O Recheio que Faltava em Sua Vida – Para Agir com Sabedoria e Ser Feliz”.

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Haja Ignorância (Bernardo Werneck)

Chegando quase ao fim desse desabafo em forma de crônicas, com o tópico mais importante deste nosso “diálogo”: a ignorância. Gosto muito de tocar nesse assunto, pois sou cativado por casos de ignorância. Ignorância é algo engraçado, pois não se trata de burrice, estupidez ou qualquer elemento pejorativo. Ignorância é universal, pois pode atingir qualquer um. É a simples falta de conhecimento, que leva a consequências engraçadas para aqueles que têm conhecimento sobre o assunto.
Como os casos são longos, resolvi só contar alguns episódios. E não culpo os participantes, pois eu mesmo tenho que reconhecer que já fiz coisas que não tenho nem coragem de contar. Mas não tem problema, pois herrar é umano!
E errar ao falar taquibaquígrafo três vezes é normal!
Quem não já ouviu a expressão que o filho de alguém é a cara do pai, “cuspido e escarrado”? Quando o cara souber que o certo é “esculpido em carrara” ele nem vai entender. Vai insistir que não  faz sentido. Afinal, cuspindo e escarrando realmente é mais fácil de fazer o rosto de alguém. Ainda mais que muco costuma mesmo fixar as formas que a gente esculpe nele.
Uma amiga minha estava contando que está namorando um cara bem mais velho. Começamos a perguntar como aquilo havia começado, sobre como lidavam com a diferença de idade e como tinham se conhecido e tal e ela começou a contar:
– Quando eu era nova, a diferença de idade era muito grande,  eu tinha 16 e ele 27 anos de idade e eu nunca imaginei nada nesse sentido. Mas quando fiquei mais velha a diferença de idade diminuiu e aí deu tudo certo.
Como assim a diferença de idade diminuiu? Que eu saiba o tempo andou igual para os dois. Ou não? Ela envelheceu mais rápido que ele? Ou ele envelheceu mais devagar que ela?
Outro: siga por esse caminho por 7 quilômetros. Mas se for rapidinho, não dá nem isso. Eu, hein?
Isso me lembra a pergunta de: “quantos aninhos você tem?” Aninhos? Que eu saiba, tirando os bissextos, os anos são todos iguais. Não tive nenhum ano menor (aninho), nem um maior (anão)! Aliás, anão é outra coisa!
Outro dia me disseram para viajar para o sul do Brasil, pois o clima lá é bem anêmico!
Dentro da loja o cara fazia os anúncios de descontos e dizia para a criançada: Essa promoção é para meninos e meninas de ambos os sexos!”.
Legal também quando afirmaram que: “a Terra é um dos planetas mais conhecidos do mundo!”
Situação que vi ao preencherem um formulário:
– Que dia é seu aniversário? E que dia você nasceu? O quê? Você nasceu no mesmo dia do seu aniversário?
Qual a diferença entre cavaleiro e cavalheiro? A resposta do espertinho que tentou explicar foi à altura da pergunta:
– Idiota, cavaleiro é quem anda de cavalo, seu besta! Agora, cavalheiro é outra coisa. Cavalheiro é… é quem anda de… é… – e ele travou.
Seria cavalho?
No restaurante, a mesa estava instável e me sugeriram colocar um “cálcio” na mesa. Talvez para curar a osteoporose?
Alguém já viu um avião fazer um vôo panorama?
Elogiaram um amigo meu e ele respondeu:
– É fio, sou igual a catchup: é nóis na frita!
Ouvi uma narração na qual disseram que o jogador saiu, pois estava com dores em ambas as coxas esquerdas.
Pesquisa de rua sobre adultério e a repórter perguntou:
– O que você acha de quem é adúltero?
– Se eu pudesse nunca seria adúltera! Seria adolescente para sempre!
Ao perguntar para uma artista se acreditava em simpatias populares, ela respondeu que sim, pois é muito importante ser simpática com todo o povo.
Em um programa de perguntas, falaram:
– Complete a frase: “A união faz a…
– Çúcar!
No clima da Copa e das cornetas e vuvuzelas, uma dona ligou para a rádio e falou que não aguentava mais essas gorgonzelas. Será um novo tipo de queijo?
Segundo o estudo de ascendência, tudo vai depender da “árvore ginecológica”.
Em entrevista de emprego, perguntaram se gostaria de trabalhar com pessoas centradas e a esperta respondeu que “em pé também serve”.
O motoboy da empresa voltou com o envelope sem entregar, pois alegou que:
– Para entrar no prédio, me pediram identidade, foto, impressão digital… maior democracia para entrar!
Já tentou comprar móveis do monstruário? Deve ser por isso que é mais barato.
Deve ser a mesma que tentou unir o útero ao agradável. Deve ser frase de mulher tarada que também quer engravidar.
A menina ficou assustada quando viu pela primeira vez um homem de mãos dadas com outro homem do mesmo sexo.
Se for conosco, também é normal que as pessoas queiram que coisas boas aconteçam perto denosco.
Camada Diozânio? Euninho e as enchentes calamitosas? Raios ultraviolentos? Micro-Leão Dourado?
“Vamos deixar de sermos egoístas e pensarmos mais em nós mesmos!”
Essa, concordo em gênero e número igual!
Outro dia o cara travou jogando poker comigo. Eu blefei e ele ficou revoltado quando viu minhas cartas. Começou a gritar:
– Por que eu desisti? Você não tinha nada. Que arrependimento. Por que eu não fui na mão? Eu não fui de besteira e devia ter… fodo?… fido? Como é que fala? Devia ter… fudo… indo… udo? Ah, você entendeu.

Quem fala “vou te dar de presente” também machuca. Se vai DAR é presente. Ou você vai DAR-EMPRESTANDO alguma coisa? “É presente, mas é emprestado, tá?”“Entre si” tem plural? Segundo ouvi, gênios brigam muito entre sires!Não suporto essa de usar que “humilde” é sinônimo de pobre.

Ah, ele vem de uma família humilde… “Eu tenho uns amigos cuja família é super humilde, mas eles têm dinheiro até o “ânus fazer bico!”. Ele limpa no banheiro com nota de cem, mas é tão humilde e discreto que quando fiquei sabendo disso, ele me pediu:
– É verdade, mas não conta para ninguém.
Duas pessoas estavam em uma discussão sobre um tema qualquer, e um falou para o outro:
– Tá duvidando? Quer ir lá em casa aferir comigo?
– Aferir não! Claro que não! Violência não leva a nada!
Ao terminar a primeira demão de tinta na minha garagem, o pintor falou que, para sumir com os defeitos, precisaria de pelo menos mais duas “demandas” de tinta.
Dúvida popular: Histéricas são as pessoas que não podem ter filhos?
Pronúncias então melhor nem entrar no tema. A letra “A” praticamente
não existe quando inicia uma palavra e que em seguida vem consoante. Por exemplo, nada como uma pizza com “zeitona”, ou diferença de pressão na “tmosfera”, ou o cara que é “posentado”, sem se esquecer dos vestibulandos a quem sempre é recomendável fazer um teste de “ptidão”.
Sabiam que, segundo um cara entrevistado na TV, “a AIDS é uma doença transmitida pelo mosquito chamado Aids Egito”?
E a expressão: “se isso acontecer, vou ficar de mão bananas”?
Dizem que tem um cara que confia tanto no amigo, que “põe a mãe no forno por ele”.
Conheço você “como a palma de minhas mães”.
Ou, ao invés de “não passe o carro na frente dos bois”, eu ouvi “não passe o cavalo na frente dos bois!”. Acho difícil o cavalo NÃO PASSAR na frente dos bois.
Declarações irresistíveis como “meu amor por você é AMOR com todas as letras: vocais e consonantes”.
“Vou dar um exemplo, mas é uma situação hipoteca!”
Nada como um congresso internacional com tradução esmultânea!
Outro dia ouvi uma pessoa em um avião dizendo que “já já o voo atingiria a atitude de cruzeiro”. Atitude? Resolvi dar uma chance dela perceber o erro e perguntei:
– Não é altitude não?
E ela me respondeu:
– Não, é atitude mesmo. Porque só gente chique que faz cruzeiro, então você tem que ficar com atitude igual a deles, sem conversar alto, sem fazer confusão.
E essa quem falou foi uma lourona, que acabou com meu argumento de que essa história de loira burra é um absurdo e que a loira mais inteligente que já existiu foi a Lassie.
Não aguento pessoas que fazem cartazes com conjugação errada. Será que ninguém ali faz uma revisão? Por exemplo:
“É mais barata a gasolina se for no dinheiro”. No dinheiro? Dinheiro agora é lugar?
E você ver formulário escrito endereço: residente e domiciliado “à rua”. Quem é que mora “à” algum lugar?
Também não aguento essa pergunta de altura para rua.
– Ah, você mora na Avenida do Contorno. EM QUAL ALTURA
da Contorno?
Eu respondo:
– Como eu moro no terceiro andar, sei lá, uns 9 metros!
Outro dia contei para um amigo:
– Cara, estava em casa pensando na vida e de repente tive uma
e epifania que mudou minha vida.
O cara arregalou os olhos, nem esperou eu continuar e olhou preocupado e perguntou:
– Você teve uma epifania? Mas você está bem agora? Chegou a enrolar a língua e tudo???
O pai de um amigo meu, quando era novo e dançava com a menina mais bonita da cidade, resolveu lançar a cantada e soltou:
– Seus olhos me cativaram!
A menina deu um tapa na cara dele e falou:
– Zoi de capivara é a mãe!
O que levaria uma pessoa a achar que alguém falaria que ela tem olhos de capivara?
Outra clássica é sobre cheque, que quando é perdido, logo o dono manda assustar o cheque.
Tem alguns que acham que corcunda acontece quando faz sexo anal e engravida.
Quando um paciente chegou para receber medicação, ele falou que só aceitaria se a seringa fosse totalmente limpa e sem sujeiras. Segundo ele:
– Ô Doutor, essa seringa tá limpa? É nova? Tá “terceirizada”?
Seria esterilizada?
E outro falando: “Doutor, o senhor tem que me receitar outro remédio, pois esse que estou tomando não faz enfeite!”
E o cara me contando: “Véi, bebi tanto que cai, bati a cabeça e fiquei fora de si”. Pelo jeito ficou tão fora que já se referiu na terceira pessoa.
Imagino o que já passou ou o que leva uma pessoa a ter que afixar placas estúpidas como: “não mije no chão” ou “favor não cagar neste local”. E a pior, com foto na internet e tudo: “Favor não cagar aqui, bando de F.D.P. sem costume”.
– Você viu aquele vídeo da moça que foi nadar em uma água muito fria e quando ela pulou, perdeu o ar, pois teve aquele negócio quando o corpo esfria… é… hipermetropia?
Nem comento.
Quem já foi a show da maior companhia internacional de circo do mundo, o incrível “Circo do seu Léo”?
E alguém me indicou a ir à Bahia, porque “lá o povo te recebe super bem, são todos muito hospitalares”.
Num jogo de futebol, duas amigas brigando para mostrar que entendiam de futebol, pois os pais são fanáticos. De repente, aparece um cara caído e uma delas fala:
– Câimbra, não é?
E a outra:
– Não. É Baggio. Roberto Baggio!
Quantas vezes ouvi que alguém foi dormir e “acordou morto”.
Ou alguém falando “será que podemos adiar isso pra depois?”.
Que eu saiba não podemos adiar para antes.
Durante uma visita escolar a uma fazenda, os alunos assistiam à retirada de leite e uma das alunas olha para uma vaca bem magrinha e feiosa encostada em um canto e pergunta:
– Fessora, aposto que aquela ali é que tira leite desnatado, não é?
Famosa é a frase de “esse foi o melhor filme feito pelo homem!” (que outra espécie faz filmes?)
Gente que fala alto é muito chato. E gente que conta o caso para todo mundo no restaurante ouvir é chatíssimo! Mas o que me deixou louco foi a quantidade de erros que o cara falou. Foi exatamente assim:
– Véi, cê num tem noção do que rolô cumigo uns dia desse. Comecei a passar mal na rua, aí os neguim chamaro a ambulança. Tava tão mal que o médico me deitou na máquina, já fez um elétrico, me deru uns trem pro estamo, mas minha dor era no figo e no bálsamo.
É meu filho, DESSE NÍRVEL! Meu amigo médico que me acompanhava quase teve um infarto.
Um amigo meu, casado, estava tomando maior bronca da esposa por ter prometido comprar um espelho para o banheiro. Um dia ele saiu bem cedo, comprou, voltou e instalou. Quando ela acordou, já foi lembrá-lo e ele, aproveitando a famosa frase de “você vem com o fubá e eu já estou voltando com o bolo” e soltou:
– Hi, já resolvi. Você tá vindo com o fubá e o bolo voltou com… quer dizer… o fubá é o bolo que…, não, o bolo que volta com fubá… ah, já instalei a merda do espelho.
E para finalizar (para comprovar a veracidade, há gravações), coloco os piores trechos que já foram ouvidos ao tentarem cantar nosso maravilhoso hino nacional, em uma coletânea desastrosa:
Ouviru na Ipiranga as márgis flácida
De um novo herói com um braço espumante
E o céu da liberdade em raios frígido
Brilhou o sol na placa desse instante
Sem o Senhor, peça igualdade
Renasci o próprio seio e a própria dose
Em terceiro, ó liberdade
Conseguiram conquistar um braço pobre
Ô cabra amada não me foge salve salve
– Brasil não põe o pé no raio livre
Eu sou da terra pátria a terra desce
Em teu risonho sol que somos livre
A image da bandeira estremece
Gigante quer da nó nesta pureza
És belo póvi pávido colostro
Em teu futuro esteja essa bandeja
Quer a morada
Entre outras milhas do Brasil
Ó pai danada
Dos filhos desse sózia image hostil
Pátria armada, abriu.

(Extraído do livro “Haja Ignorância II – Bernardo G. Werneck Côrtes, pp. 206-211, Physis Editora)