Como ser escritor: a verdade sobre o mundo dos livros.

O Feijão e o Sonho.

Em seu famoso romance, convertido em roteiro de novela televisiva, Orígenes Lessa retratou de forma contundente a realidade sobre a profissão de escritor no Brasil. A estória (que poderia bem ser história) de Campos Lara nos comove pela dramaticidade e pelos percalços vividos por um homem movido pelo idealismo e pelo sonho. E o desfecho da narrativa nos deixa estarrecidos diante de uma vida que, embora marcada pelo heroísmo criativo do personagem, deixa o registro de uma existência pontuada pela luta dolorosa, pelo sofrimento e pelo sacrifício, num antagonismo quixotesco que opõe o devotamento exclusivo para a arte diante de uma realidade amarga que quase sempre não reserva espaço suficiente para as realizações do espírito de um artista.

A Vez dos Vencidos.

Jamais poderemos considerar o estereótipo de Campos Lara como o de um derrotado. Na verdade ele foi um grande vencedor ao jamais abrir mão de seus ideais, ao levar até as últimas consequências o desejo consciente de lutar pela sua literatura. Entretanto, não podemos deixar de ter a impressão de que foi pago um preço alto demais, quando sabemos que esta estória corresponde exatamente à realidade de muitos dos autores que hoje admiramos, mas que morreram em meio à miséria, à fome e à doença, completamente esquecidos ao mesmo tempo em que eram glorificados. Não é necessário citar nomes pois é corrente a lista de poetas e escritores que tiveram um fim até mesmo bem pior que o do personagem citado. De certo modo esta realidade parece estar impregnada em alguma parte do inconsciente coletivo de nossa sociedade, que muitas vezes vê o escritor (o romancista, o poeta, o biógrafo…) com os olhos de quem vê alguém sem o futuro e sem a estabilidade que as outras ocupações proporcionam.

A Vez dos Vencedores.

Do outro lado deste espelho encontramos a antítese de Campos Lara. Figura muito difícil (porém não impossível) de ser encontrada, o autor bem sucedido financeiramente é envolvido por uma aura mítica e inspira as novas gerações de jovens autores em busca da fama e da riqueza simultâneas. Podemos encontrar alguns nomes desse tipo de autores nas listas de livros mais vendidos e em notas dos suplementos literários dos grandes jornais, anunciando a venda antecipada sobre os direitos de seus próximos livros. Porém, não podemos esquecer que este perfil de escritor acaba muitas vezes execrado por uma classe de indivíduos com certa influência sobre os meios de comunicação denominados como críticos literários. Para alguns destes, ganhar algum dinheiro com a publicação de livros parece ser algo completamente abominável e logo surgem argumentações estéticas incompreensíveis para justificar posicionamentos que, quase sempre, os colocam (os críticos) como donos da verdade. Para eles, um grande número de leitores potenciais representa apenas uma massa de ingênuos que necessita de esclarecimentos e conselhos sobre o que é um livro bom ou um livro ruim. É neste exato momento que o autor-antítese de Campos Lara pode ser acusado meramente de autor de best-seller (como se este termo pudesse significar algo mais do que simplesmente um livro bem vendido) ou de estar produzindo subliteratura (como se o termo literatura pudesse ser comparado analogicamente a um edifício com andares inferiores), ou ainda de estar utilizando uma linguagem simplista demais e que, por ser acessível a um grande número de pessoas que não estão acostumadas a determinados rigores linguísticos, não merece espaço algum em qualquer academia.

A Verdade sobre o Mundo dos Livros.

Ao nos colocarmos no centro destas duas possibilidades de destino levantadas, algumas indagações surgem em nossa mente: Afinal de contas, quem deve pensar sobre isso e orientar os interessados neste tema, uma vez que nunca vimos algo concreto e transparente sobre este assunto? O que um escritor pode esperar realmente de seu trabalho? Até que ponto e de que forma ele pode se considerar um profissional como outro qualquer, como um médico ou advogado, com um papel fundamental dentro da sociedade? E se isto não for possível, constitui algum crime considerar a atividade de escritor como algo secundário? Quem deve determinar o valor de seu trabalho e quais devem ser os critérios utilizados para esta determinação? É possível encontrar um ponto de equilíbrio entre a liberdade criativa e a necessidade econômica do autor? Evidentemente, encontrar respostas para todas estas questões exigiria um espaço muito superior ao que dispomos neste artigo introdutório ao assunto. Mesmo assim, achamos importante iniciar o debate e qualquer outra questão, colocação ou sugestão pertinente será bem-vinda para que possamos retomar este tema oportunamente e de uma forma mais profunda.

Do original ao leitor: como os livros são feitos?

A grande maioria dos autores – e do público leigo em geral – desconhece as etapas de produção editorial que são necessárias para que um livro esteja impresso e pronto para ser distribuído para os leitores e para as livrarias.

De acordo com o perfil do autor e a partir das características do original, cada uma das etapas de produção podem ser mais ou menos minuciosas, para que haja uma adequação eficiente entre o texto apresentado pelo autor e as necessidades específicas tanto dos leitores, quanto das exigências do mercado.

Em princípio, todo o processo de edição inicia-se através da avaliação do original por um editor competente, que seja capaz de identificar as potencialidades da obra e o espaço que ela pode ocupar ou preencher para um público-alvo específico ou dentro de um nicho de mercado, bem como identificar também as eventuais lacunas, falhas ou incoerências que precisam ser corrigidas ou reavaliadas pelo autor, sempre com o objetivo de ter, como produto final, um livro com a melhor qualidade possível.

A grande complexidade do mundo dos livros e do mercado editorial decorre do fato de que não existem dois livros iguais. Cada obra publicada surge como um projeto único, que está intrinsecamente ligado ao autor, como também ao seu próprio conteúdo. Além disso, devemos também considerar que, apesar do autor ser o criador intelectual do conteúdo, muitos outros profissionais acabam participando e contribuindo com elementos secundários capazes de exercer influências no resultado final da publicação. Entre estas influências podemos citar, por exemplo, a de uma capa que represente da melhor forma possível o conteúdo, ao ponto de exercer atração aos leitores, ou mesmo a importância de um bom planejamento visual e projeto gráfico, capazes de proporcionar, através de elementos como tipologialegibilidade, a melhor experiência como prazer de leitura .

Desta forma, assim que um autor apresenta  a sua obra finalizada e entra em um acordo de publicação, a trajetória do original deve passar por todas as etapas de editoração, começando pela revisão do texto e posteriormente pelas fases de copidesque, revisão técnica (em publicações específicas), planejamento gráfico e criação de capa, diagramação, revisão de provas de impressão, até chegar ao produto final do livro pronto para ser distribuído e colocado nas livrarias ou ao alcance dos seus potenciais leitores.

No entanto, ao chegarmos nesse ponto, podemos considerar que estamos apenas na metade do caminho. Para que o sucesso seja realmente alcançado, não basta atingir este ponto e esperar que, a partir daqui, o livro tenha vida própria e se venda por si mesmo nas prateleiras das livrarias, pois a experiência e a observação nos ensinam que sem a divulgação e a promoção da obra, o ciclo esperado entre o autor e o leitor não se fecha, ou seja, mesmo tendo um produto final como um livro de boa qualidade, todo o trabalho minucioso e dedicado feito nas etapas anteriores pode ser perdido.

Este é um blog do Clube Brasileiro dos Escritores, criado especificamente para discutir todos os assuntos relacionados com a produção, divulgação e venda de livros, abrangendo todas as peculiaridades do mercado editorial e que tem como objetivo principal, orientar autores independentes e demais interessados em busca do sucesso na publicação de suas obras.

No Mundo das Vírgulas (Nilson Souza)

Tive outro dia uma conversa com acadêmicos de Comunicação da PUC e notei certa ansiedade da garotada em relação a uma rotina da vida jornalística, que é a obrigatoriedade de escrever sob a pressão do horário e nos limites do espaço disponível. Tentei tranquilizá-los: sempre é possível e, com a prática, todo o mundo consegue, não é preciso ter nenhum dom especial. Difícil mesmo é escrever bem. Para isso, não basta ter tempo, espaço ou vontade; é necessário, acima de tudo, persistência. Nunca tive a pretensão de orientar ninguém sobre esta matéria, até mesmo porque também suo diariamente para dar uma forma apresentável a meus textos – e nem sempre consigo. Mas recolhi das leituras da madrugada (leiam, leiam, leiam, mas também procurem escrever e submeter o texto à apreciação de leitores qualificados!) alguns ensinamentos que agora retransmito, na esperança de que sejam úteis a quem se interessa pelo tema.

O primeiro deles é de Isaac Bashevis Singer, para quem o melhor amigo do escritor é a lata de lixo. Pode parecer um tanto desestimulante, mas é um admirável conselho. Lembra que a boa redação – aliás, como tudo na vida – só pode ser alcançada com humildade, com o reconhecimento da má obra. Fazer, cortar e refazer repetidamente: este é o ciclo. Trabalhoso, mas necessário. O que é escrito sem esforço, disse Samuel Johnson, geralmente é lido sem prazer.

O escritor tem que se preocupar com os mínimos detalhes de sua obra, e especialmente com estes. Tom Campbell andou certa vez dez quilômetros até a gráfica que imprimia um dos seus livros (e dez quilômetros de volta) para mudar uma vírgula num ponto e vírgula. E é exatamente nas vírgulas que tropeçam os redatores iniciantes, separando o que não deve ser separado e unindo o que não pode estar junto. A pontuação é o cimento do texto. Querem um exemplo? Leiam a historinha abaixo, que retirei de uma coletânea de pensamentos de Mansour Challita:

Foi encontrado o seguinte testamento: “Deixo os meus bens à minha irmã não a meu sobrinho jamais será paga a conta do alfaiate nada aos pobres”. Quem tinha direito ao espólio? Eram quatro os concorrentes. O sobrinho assim pontuou o texto: “deixo os meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho. Jamais será paga a conta do alfaiate. Nada aos pobres”. A irmã pontuou assim: “deixo os bens à minha irmã. Não ao meu sobrinho. Jamais será paga a conta do alfaiate. Nada aos pobres.” O alfaiate fez a sua versão. “Deixo os bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho? Jamais! Será paga a conta do alfaiate. Nada aos pobres”. O procurador dos pobres pontuou assim: ‘Deixo os meus bens à minha irmã? Não! Ao meu sobrinho? Jamais! Será paga a conta do alfaiate? Nada! Aos pobres!”.

O anônimo moribundo, como podem perceber os leitores, não era um bom redator. Ou então tinha – por motivos óbvios – a pressa dos jornalistas nos minutos que precedem ao fechamento da edição.

(*) Crônica de Nilson Souza publicada no jornal Zero Hora em 1º/9/1994.